PSEUDO-VERDE

Em época de estampar partido e levantar bandeira, feliz é aquele que ao reutilizar uma garrafa plástica acha que está salvando o meio ambiente. Feliz é aquela que saúda a natureza no Dia da Árvore em uma postagem no Facebook. Feliz é aquela multinacional que imprime no rótulo do produto sua mais nova iniciativa ecossustentável. Já encorajava o dito popular: jogar verde para colher maduro. Entretanto, até onde essas práticas, supostamente verdes, contribuem para a conscientização e a busca por um equilíbrio ambiental?


A começar pela questão da garrafa plástica: estima-se que 50% do plástico do planeta é usado apenas umas vez antes de ser descartado. O desafio é elaborar um descarte apropriado. O ritmo de produção atual, consequentemente, traz um problema disputatorial de matéria-prima. Tendo isso em vista, a reutilização de garrafas de água parece ser a campanha certa a se seguir. Contudo, qual o motivo por trás da decisão de algumas cidades pelo mundo de banir os engradados plásticos que armazenam especificamente água? A justificativa é dada por uma série de estudos sobre a composição química das garrafas e das alterações que estas podem sofrer.


As garrafas não são feitas para a reutilização. Constituem um ambiente úmido, fechado que obtém contato direto com a boca e as mãos, criando o local perfeito para a proliferação de bactérias. Além disso, quando expostas ao calor, as garrafas contaminam a água com um composto chamado Bisfenol A (BPA), que se desprende do material plástico. Porém, nem todo engradado possui BPA em sua fórmula. As garrafas tipo PEF (politereftalato de etileno) são mais resistentes, o que não exclui a possibilidade de apresentar problemas. Foram registrados casos de alteração hormonal, mutação genética e disfunções ligados ao uso contínuo de garrafas plásticas bem como ao consumo de seu conteúdo, seja água ou outro bebida. Todavia, protagoniza-se a água porque acredita-se que a água engarrafada é mais limpa e de melhor qualidade que a água encanada. Dessa maneira, a comercialização de garrafas d’água não sofreria sanções mesmo se fosse de conhecimento público os possíveis danos à saúde.


A cidade de Concord, nos EUA, proibiu a venda de garrafas de água para consumo individual em 2012 e desde então investe na qualidade da água encanada. Essa medida se deu pela atuação de ativistas que perceberam que a água engarrafada vinha das mesmas fontes de saneamento administradas pelo município. Autores de lei com a mesma proposta em São Francisco, EUA, afirmaram que um terço da água engarrafada é água comum, encanada, e embalada. Em decorrência disso, o preço e a qualidade da água vendida em garrafa passaram a ser questionados no mundo todo. O marketing da indústria de bebidas foi fortemente questionado por induzir a desconfiança em relação à água de torneira, encanada.


A iniciativa de Concord e de São Francisco mostra-se como a solução mais cabível, mas levanta outras questões, com o a de distribuição de água em espaços públicos e grandes eventos. Para que isso fosse resolvido, a administração de Concord optou por construir estações de abastecimento de água pela cidade, uma nova geração de bebedouros. No inverno, os bebedouros são desligados para que os cabos não congelem e o comércio local oferece água gratuita para hidratar a comunidade. Nos supermercados e lojas de conveniências, as prateleiras e geladeiras trocaram a água comum por bebidas saborizadas. Os cidadãos reclamam de não ter a opção de beber algo mais saudável e, ironicamente, esse foi o mesmo argumento usado pelas representações de grandes empresas do ramo para convencer os supervisores do Conselho a apoiar a comercialização de água em garrafas.


A suspensão de venda de garrafas plásticas não é uma tendência mundial, pois envolve uma reestruturação do sistema de saneamento básico e esgoto. Para que possa vir a funcionar de fato, seria necessária uma reorganização do abastecimento de água. Enquanto isso não acontece, a sustentabilidade é apenas mais um conceito apropriado pelo capitalismo para colher maduro.


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